O DISCURSO MACHISTA
Fernanda Santos
Ravena de oliveira
Reinanda Queise
Resumo
Este artigo tem como objetivo analisar as questões relativas à formação discursiva sobre o machismo em alguns textos, piadas e enunciações que circulam no ambiente social em que vivemos. A compreensão que sugerimos pretende demonstrar as possíveis formas de leitura atreladas ao discurso e que demonstram outros sentidos para a compreensão da essência do próprio discurso machista. Com o intuito de que se obtenha um conhecimento de como as ideologias são empregadas em diversos discursos, ora afirmando e fechando em si a temática, ora expandindo-a a outras áreas com a finalidade de reforçar tal idéia, foi feita uma análise do pensamento e práticas machistas.
Palavras- chave: Formação discursiva; Ideologia; Machismo
Introdução
Este trabalho tem como perspectiva a compreensão de como as formações discursivas apresentam em seus elementos textuais a manifestação de uma ideologia coexistente, (neste caso, o machismo) evidenciando características peculiares a esse tipo de material. Portanto, trazem também a comprovação de que, embora sejam produzidos em situações e contextos diferentes, estes discursos compartilham de idéias semelhantes.
1. O SUJEITO DO DISCURSO
Na Análise do Discurso o sujeito é histórico pelo fato de alienar-se às questões culturais da sociedade que o cerca, pois o mesmo não pratica o discurso sozinho, ao contrário ele dispõe da influência coletiva. Como afirma Orlandi (2005, p.20) “O sujeito da linguagem é descentrado, pois é afetado pelo real da língua e também pela história, não tendo controle sobre o modo como ela o afetam”.
O sujeito do discurso para os analistas nomeia-se à medida que se formam as relações de sentido. O sentido não está nas palavras, os significados são instituídos ao passo que ocorre a interação entre os participantes no interior do discurso.
Segundo Orlandi, (2005, p.15) "o discurso é a palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando”, entretanto para o individuo o discurso é o meio pelo qual a interação se materializa, ou seja, as formações lexicais se consolidam e elabora-se um discurso.
Formação discursiva
“A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto discurso ela é interação, e um modo de produção social; ela não é neutra, inocente e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia”. Nagamine. 2004.p.11.
Na análise do discurso, a linguagem é tratada de modo indissociável à ideologia, pois as questões relativas à construção da fala bem como o sujeito do discurso estão intrinsecamente ligados, visto que este sujeito não é inconsciente, mas participativo das intervenções da linguagem.
Segundo Orlandi, 2005.p.20 o sujeito da linguagem é descentrado, pois é afetado pela língua e pela história o tempo todo, não tendo domínio sobre tal situação.
Com isso, passamos à compreensão do discurso não como a fala isolada, pois ele não é fechado em si mesmo, mas como local de compartilhamento de idéias, no qual é possível fazer associações com outros enunciados que ao longo da história foram produzidas, fazendo assim um elo entre esses discursos e formando o interdiscurso.
DITOS POPULARES QUE EVIDENCIAM O DISCURSO MACHISTA
1. Lugar de mulher é na cozinha.
2. Mulher no volante perigo constante.
3. A última palavra é sempre da mulher: sim, senhor!
4. Mulheres são como moedas, ou são caras ou são coroas.
5. Mulher feia é como pantufa... dentro de casa até que é gostosinha , mas na rua ...da uma vergonha!!!
6. O homem tem muitas mulheres por não ter a certeza se a que ele tem é só dele!
7. Mulher é igual à goma de mascar: você mastiga, chupa, cospe, pisa em cima dela e ela ainda gruda no pé!
8. Qual a semelhança entre a mulher e o computador? – é que as duas tem memória, mas inteligência não!
9. Qual a semelhança entre as mulheres e o pára quedas? – é que se não abrirem, não servem para nada.
10. Mulher é como alça de caixão: quando um larga, outro põe a mão.
11. Mulher é igual à cebola, a gente chora mais come.
12. Não sou galo, mas arrasto as galinhas.
13. Casa sem fogão é casa sem mulher.
14. Mulher sem marido, barco sem leme.
15. Mulher é um sexo frágil.
16. O duro não é carregar o peso do chifre, é manter a vaca.
17. Mulheres podem ser capazes de fingir um orgasmo, mas homens podem fingir um relacionamento por completo.
18. Há dois momentos em que os homens não entendem as mulheres: antes e depois do casamento.
19. Mulher tem que esquentar a barriga no fogão e esfriar na pia.
20. Aquela é uma “Maria Chuteira”.
Análise dos discursos
As mulheres por muitos anos foram vítimas de um preconceito descabido, que atravessou gerações, e que ainda existem em nosso meio. Partindo de uma sociedade patriarcal, a qual, o homem é tido como “o cabeça” da família, não podendo em hipótese alguma ser contrariado, a mulher viveu por muito tempo submissa, até que conseguisse aos poucos conquistar uma independência, que por vezes se dissipa em inúmeros papeis que ainda são atribuídos apenas a mulher, como exemplo, a responsabilidade com a cozinha, os afazeres domésticos, o cuidado com os filhos, demonstrando assim, que a dupla jornada é marcante no dia-a-dia feminino. Ao analisarmos as frases: 1. “Lugar de mulher é na cozinha.”; 3. “A última palavra é sempre da mulher: sim, senhor!”; 13. “Casa sem fogão é casa sem mulher.”; 14. “Mulher sem marido, barco sem leme.”; 16. “O duro não é carregar o peso do chifre, é manter a vaca.” e 19. “Mulher tem que esquentar a barriga no fogão e esfriar na pia.”, comprovamos a imagem estereotipada da mulher, que por muitos, é vista como sendo aquela que não pode desempenhar funções fora de casa ou aquela cujo serviço doméstico é designado.
Entretanto, muitas mudanças ocorreram com o passar dos anos, certamente, com direito ao voto feminino, a inserção em áreas antes direcionadas ao homem, a participação no controle e sustento do lar, entre outros, gerou um clima de menor preconceito, embora não tenha sido totalmente aniquilado. Temos como exemplo as frases: 2. “Mulher no volante perigo constante.”; 8. “Qual a semelhança entre a mulher e o computador? – é que as duas tem memória, mas inteligência não!”; 15. “Mulher é um sexo frágil.”, todos os enunciados evidenciam a predominância de um discurso preconceituoso e de subestimação da inteligência feminina, demonstrando a dificuldade que há em aceitar a integração da mulher em todos os espaços sociais. Mas nos chama a atenção o fato de permanecerem, alguns ecos de discurso machista com indícios atuais. Podemos perceber essa questão ao observarmos o modo como lidamos com a presidência feminina e a ocupação de cargos políticos assumidos por mulheres.
Portanto, é possível afirmar que a produção dos discursos resulta das possibilidades sociais geradoras de condições dadas, ou seja, o terreno das disputas pelos dizeres e pelo próprio discurso (Foucault, 1998). Algumas vezes, à formação discursiva evidenciada em alguns textos remetem a outras ideologias que se fazem presente no mesmo texto de forma menos evidente, e outras que são compartilhadas entre os seres humanos no decorrer dos anos através da memória.
O conceito de mulher é entendido por muitos (machistas), como de um ser desprovido de raciocínio que só é levado pelas emoções; por vezes, ignoram que as mulheres que cumprem papéis sociais ainda estigmatizados (lavar, passar, cozinhar, arrumar), ali atuam também como profissionais competentes e que elas pensam sobre si mesmas. Socialmente alguns homens se acham “machos”, sentem-se impunes as leis realizando atos de violência e agressividade as suas mulheres, esses comportamentos materializam a formação discursiva que esse indivíduo construiu com o decorrer do seu crescimento, seja pelas influencias culturais, históricas, familiares, sociais, etc.
Contudo a violência não se restringe apenas no campo da agressividade física, a moral de muitas mulheres é colocada em jogo, quando sua imagem é submetida ao deboche e a desvalorização. Fica claro nas freses: 5. “Mulher feia é como pantufa... dentro de casa até que é gostosinha, mas na rua... da uma vergonha!”; 7. “Mulher é igual à goma de mascar: você mastiga, chupa, cospe, pisa em cima dela e ela ainda gruda no pé!”; 17. “Mulheres podem ser capazes de fingir um orgasmo, mas homens podem fingir um relacionamento por completo.”.
Devemos considerar também a construção de uma figura feminina tida como objeto sexual, além de identificarem-nas também, como aquelas que servem para satisfazer os desejos sexuais do homem, notamos essas lógicas nas frases: 6. “O homem tem muitas mulheres por não ter a certeza se a que ele tem é só dele!”; 9. “Qual a semelhança entre as mulheres e o pára quedas? – é que se não abrirem, não servem para nada.”; 10. “Mulher é como alça de caixão: quando um larga, outro põe a mão.”; 11. “Mulher é igual à cebola, a gente chora mais come.”; 12. “Não sou galo, mas arrasto as galinhas.”. A visão amplia-se para uma concepção predefinida, o discurso machista também comprova a estigmatizaçao do sexo feminino como sedo interesseiras, oferecidas, observa-se nas frases: 4. “Mulheres são como moedas, ou são caras ou são coroas.”; 20. “Aquela é uma ‘Maria Chuteira’”.
Os discursos machistas que circulam em nosso meio social, sem dúvida são resultado de uma sociedade extremamente ideológica. O fundo discursivo machista é a comprovação de que os traços da memória são determinantes na concepção de muitos homens, justamente porque seu surgimento só se dá mediante um cenário dado por condições históricas. Por trás de qualquer discurso, definidamente há sua memória, que por sua vez desenvolve-se a partir de suas condições sociais. Dessa forma, quando determinados dizeres machistas surgem, indiscutivelmente sua consolidação ocorre em detrimento do cenário da formação discursiva que os envolvem. Segundo R.W. Connell (1995), tratar determinado fenômeno no âmbito da masculinidade refere-se ao tratamento a partir de uma dada masculinidade que se quer hegemônica. Nesse sentido só reforçamos a ideia de que o discurso masculinizante é fruto das influências sofridas pelo individuo, sejam elas sociais, culturais ou da memória.
Referências
FOUCAULT, M. Arqueologia do saber. 5ª ed. Trad. Luis Felipe Baeta Neves, Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 1997.
CONNELL, R.W. “Políticas de Masculinidade”. In: Educação e Realidade, 20(2):185-206, jul/dez, 1995.
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