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terça-feira, 20 de março de 2012

Resenha crítica sobre estrangeirismo

Um passeio pelo centro comercial de qualquer cidade brasileira ou mesmo quinze minutos à frente da televisão é suficiente para nos pôr em contato com uma enorme quantidade de palavras alheias ao nosso idioma. Como afirma Roberto Pompeu de Toledo em artigo publicado na Revista Veja, “Isso vale tanto para o mundo dos ricos – o do serviço bancário chamado prime e o do evento chamado Fashion Week – quanto para o dos pobres, que encontram a seu dispor a lanchonete X Point.” O fato é que inúmeras palavras e expressões estrangeiras são lançadas aos montes no nosso cotidiano. Assim, passear em certas alas de Shopping Centers de grandes cidades brasileiras pode dar ao indivíduo a sensação de estar andando nas ruas de Londres ou Nova Iorque. E, se já não bastassem os nomes das lojas em inglês, elas já não usam palavras como liquidação ou desconto. Em seu lugar, optam pelas requintadas sale ou off. Só para citar mais um exemplo, nossas farmácias, há muito tempo, já não fazem entregas em domicílio porque seu serviço é de delivery.
O estudo em questão visa abordar o uso do estrangeirismo no português brasileiro a partir de um estudo de caso realizado com foco nos nomes dos estabelecimentos comerciais e anúncios da cidade de Santo Antônio de Jesus, Bahia. Para este fim buscou-se observar a relação existente entre o uso de estrangeirismo e empréstimos com a “linguagem e ideologia”
Para a discussão do tema, algumas considerações são necessárias, a começar pelo entendimento do que é língua. A língua não é estática pelo contrário ela é multifacetada, se considerarmos que ela simplesmente muda. Isso quer dizer, que não há uma uniformidade na nossa língua, justamente por ela desde o início ter sofrido uma série de influências externas. A língua que falamos está longe de ser uma língua pura, como desejam aqueles que se dizem defensores ardorosos do nosso idioma, mas ela tem sua configuração atual assim definida devido ao contato com diversos povos.
Muitas palavras que são utilizadas no nosso dia-a-dia não são originalmente nossas, mas constituem empréstimos de outras nações, que acabaram se incorporando ao nosso vocabulário e se passam como verdadeiramente brasileiras. Esses empréstimos são palavras que não descendem do país onde circulam, são termos infiltrados na língua e adaptados ao cotidiano das pessoas.
Já agora consideramos importante definir o que seja empréstimo lingüístico e, para isso, recoremos ao que diz Câmara Jr. (1998, p. 104, 105):

Empréstimo é a ação de traços lingüísticos diversos do sistema tradicional. O condicionamento social para os empréstimos é o contato entre povos de línguas diferentes, o qual pode ser por coincidência ou contigüidade geográfica, ou, à distancia, por intercâmbio cultural em sentido lato. A coincidência ou contigüidade geográfica determina os empréstimos íntimos e a língua a que é feito o empréstimo constitui um substrato, um superstrato ou um adstrato. Os empréstimos à distancia são culturais.

Um empréstimo representa então a utilização de uma palavra ou traço lingüístico de outra língua. Uma unidade lexical estrangeira, ao integrar-se na língua nacional, representa um empréstimo lingüístico, a esse fato chamamos de estrangeirismos, que para Garcez e Zilles se define como:

Estrangeirismo é o emprego, na língua de uma comunidade, de elementos oriundos de outras línguas. No caso brasileiro, posto simplesmente, seria o uso de palavras e expressões estrangeiras no português. Trata-se de fenômeno constante no contato entre comunidades lingüísticas, também chamado de empréstimo. A noção de estrangeirismo, contudo, confere ao empréstimo uma suspeita de identidade alienígena, carregada de valores simbólicos relacionados  aos falantes da língua que originou o empréstimo (Garcez; Zilles, 2004, p.15)

Estrangeirismo, portanto, é o emprego na língua de uma comunidade, de elementos oriundos de outras línguas.
É claro que a utilização de palavras estrangeiras está diretamente ligada ao contato sócio-político e econômico que existe entre povos de diversas nações. O estrangeirismo é comumente utilizado devido à influência das relações construídas pela miscigenação cultural, processo acelerado da globalização e principalmente pela mesticidade do nosso país, já que o mesmo foi formado a partir do contato de diferentes povos, daí então resultando nossa identidade.
A formação lexical do português brasileiro foi constituída com empréstimos de outros idiomas, como é o caso do árabe, das línguas germânicas, do italiano, do espanhol, do francês, de línguas africanas, indígenas, entre outras. Esses empréstimos foram introduzidos em nosso vocabulário, no entanto nem sempre temos conhecimento de suas origens, ex: alface, açúcar, azeite (árabe); soutien, batom, tricote (fracês); macumba, vatapá (tupi); cavaleiro, castanhola (espanhol), etc.
A influencia do estrangeirismo no Brasil é considerada por alguns, especialmente pelos lingüistas, uma fonte de enriquecimento da língua; mais é combatida por alguns “puristas”, que entendem que a invasão das palavras estrangeiras danifica, degrada, denigre e desnacionaliza a língua portuguesa comprometendo, assim, a identidade de um povo. No entanto, alguns gramáticos afirma que trata-se de um equívoco considerar o uso dos estrangeirismo como desnacionalização ou empobrecimento da língua.
Um léxico sempre pode crescer, e receber novos sentidos, mais isso não é feito através de imposições. Apesar do desmedido uso dos empréstimos, eles acabam se restringido em determinadas áreas. Nem sempre produzem mudanças na natureza da língua. São, na verdade, responsáveis pelo enriquecimento dela. Além do mais, é a gramática que constitui a língua, e neste domínio, a gramática encontra-se de forma absolutamente intocável. 
É verdade que, quando utilizado em demasia, o estrangeirismo causa um efeito de desequilíbrio na língua, porque este passa a ser visto como algo exagerado e desnecessário, negando as nossas palavras de origem que podem traduzir com mesmo sentido o que se espera. Por outro lado, precisamos ter em mente que os estrangeirismos, em geral, não passam de palavras que servem para designar elementos que são em algumas situações universais, é o caso dos meios tecnológicos: Ipod, notebook, pen drive entre outros. Quando lançados no mercado tecnológico esses termos se estabelecem, em conseqüência de pertencerem a uma potência dominante.
O que acarreta a predominância dessas expressões é a valorização da ideologia de outras culturas de prestígio. Para Barros:
A ideologia dominante é tão abrangente que torna as demais organizações do saber fragmentárias e muitas vezes contraditórias, pois incorporam elementos da representação dominante. O grau de coerência e abrangência dos sistemas ideológicos não é, assim, o mesmo das diferentes concepções de mundo (Barros, 2001, p. 150).
A ideologia como vimos, é a forma de que o homem se utiliza para compor preceitos e valores de uma sociedade. Neste caso, o estrangeirismo por si acumula uma ideologia, nota-se isso quando utilizamos palavras de outros idiomas tomando como mais importantes, por apresentar um sentido de superioridade que fomenta aquela ideia de que o que vem de fora é “melhor”.
O processo de pesquisa da utilização de estrangeirismos no comércio de Santo Antônio de Jesus nos fornece uma fundamentação argumentativa para afirmar que em sua maioria as palavras estrangeiras são usadas de forma abusiva, fugindo dos parâmetros considerados aceitáveis. Ou seja, não há um controle acerca do uso de expressões estrangeiras, se considerarmos que é natural a ocorrência de intercâmbios lexicais (que, quando usados de forma moderada, enriquecem a língua). Isso justifica a falta de bom senso quando se trata de tal uso.
É possível perceber que muitos estabelecimentos comerciais de SAJ utilizam-se de termos estrangeiros em outdoor e layout de lojas, lanchonetes, restaurantes salões, hotéis e etc, de maneira exagerada. Temos como exemplo estabelecimentos que utilizavam a palavra off para indicar liquidação entre outras que tinham sua logomarca por nomes: Restaura Shoes (restauração de sapatos); Kiss (loja de confecções);  Griff sports (materiais esportivos); Antonius Imperial Hotel (hospedagem); Max burguer (lanchonete); Griff calçados (sapataria); Alfababy (confecções infantis); For man (confecções masculinas); Flamboyant (condomínio); New móveis (loja de utensílios domésticos).
É importante que exista uma originalidade na construção de um idioma, visto que ele caracteriza a cultura e a língua de um povo. Mas é interessante ressaltar que as influências de outros idiomas servem de empréstimos para a formação de palavras que se tornam inerentes ao nosso vocabulário quando adaptadas adequadamente. Os empréstimos de outras línguas não descaracterizam a língua portuguesa, pelo contrário acrescentam novas palavras.
A língua está intrinsecamente ligada à sociedade, desse modo há uma dependência entre ambas, portanto o estrangeirismo deve ser compreendido como resultado das relações de diversos fatores culturais, por meio de aparatos lingüísticos. Contudo seu uso deve ser ponderado nas mais variadas situações. É importante salientar que o nosso processo lingüístico e suas contribuições foram e sempre serão importantes para a composição dos sistemas lexicais de todas as línguas. Entretanto, devem-se preservar os termos já existentes na língua portuguesa, em manifestação do respeito ao nosso idioma.

Referências

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática,2001.

GARCEZ, Pedro M,; ZILLES, Ana Maria  S. Estrangeirismos: desejos e ameaças. In FARACO, Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos: guerras em torno da língua. 3ª Ed. São Paulo: Parábola, 2004. P. 15-30.

CAMARA Jr., J. Mattoso. Princípios de lingüística geral. Rio de Janeiro: Padrão,1989.

Um comentário:

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