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terça-feira, 20 de março de 2012

Artigo feito por: Ravena Oliveira, Reinanda Queise e Fernada Santos - Alunas da Universidade do Estado da Bahia.

Representação do dialeto “caipira” na telenovela: Morde e assopra.

RESUMO: O presente estudo volta-se para a análise da variação lingüística através da observação do dialeto caipira representado na telenovela Morde e Assopra, exibida pela emissora de televisão Rede Globo. Este trabalho expõe uma esfera linguística que abrange questões de cunho social, levando em consideração que as diferentes formas de uso da língua motivam com recorrência alguns julgamentos e críticas voltados para a forma como certos grupos se expressam. Esta análise destaca que a televisão, com frequência, exibe uma visão estigmatizada de certos falares, especialmente de dialetos “caipiras”, considerados como expressão “desqualificada”.
Palavras chaves: Variação linguística. Mídia. Preconceito.    

INTRODUÇÃO
O conceito de língua pode ser abordado sob várias perspectivas, devido
ao fato de ser objeto de diversas disciplinas, como a Antropologia, a
Sociologia, a Psicologia e a Lingüística, entre outras. Limitando-se à lingüística, o objeto língua também pode ser concebido sob diferentes óticas. A língua que é dinâmica, viva, está cada vez mais sujeita a constantes mudanças, não sendo, portanto, estática. Desde o período colonial, diversas influências contribuíram para a transformação de uma língua que se apresenta de forma diversificada. O dialeto caipira no Brasil, por exemplo, é resultante da miscigenação entre os colonos portugueses, índios e  alguns negros que a eles se juntaram, o caipira emergem dessa mistura entre etnias.
O dialeto caipira é definido pelas tendências históricas do processo de construção e alterações da língua. Entretanto os símbolos característicos dos falantes caipiras não obstante, tem sido apresentados nas telenovelas pela narrativa ficcional, na maioria das vezes de maneira destorcida, cujo principal foco é a construção de um estereótipo para dar significado ao falar “caipirês”. A partir dessa transmissão desconfigurada do que seja os costumes e características do dialeto caipira, os telespectadores tendem a uma recepção de forma mais ou menos disfarçada do real.
Seguindo por esta perspectiva este trabalho volta-se para a análise do preconceito linguístico existentes nas telenovelas e transmitidos pelos veículos midiáticos para a sociedade, bem como uma pequena avaliação de algumas cenas exibidas na novela Morde e Assopra, pelo canal aberto da emissora Rede Globo de Televisão.


Percepções do falar Urbano e Rural

Tradicionalmente, rural se opõe a urbano, levando a uma visão dicotômica, favorável ora ao espaço rural ora ao espaço urbano (MARX e ENGELS, 1993; CANDIDO, 1987; AMARAL, 1982).  Levando em conta esse pensamento pode-se afirmar que existem sim diferenças sociais notórias entre rural e urbano, no entanto esta temática será voltada para os aspectos linguísticos. A cultura caipira detém uma variedade dialetal diferenciada, essa comunidade se caracteriza por uma vida social de tipo fechado, com base na economia de subsistência, ao contrário da cultura urbana que enfatiza os costumes sociais globalizados, valorizando a linguagem culta e até mesmo padrão da língua.
 A linguagem evidenciada pelos falantes rurais possui desapegos a formalidade e constituem digressões a norma dita culta em que o português vai ser entendido como elitista e de distinção entre as classes urbanas e rurais.



FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A partir do objetivo principal do estudo que é demonstrar que o dialeto caipira sofre preconceito lingustico foi introduzida algumas idéias referentes ao que apontam os sociolinguistas acerca desta problemática.
O maior estudioso do caipira foi Cornélio Pires, que compreendeu, valorizou e divulgou a cultura caipira nos centros urbanos do Brasil. Cornélio Pires afirma:

A história cultural, tal como a entendemos, tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler.

A sociedade criou alguns preceitos voltados para as questões que envolvem a comunicação e que exige uma interação entre os mais variados falantes. Há alguns conceitos para a representação das diversas expressividades do “caipirês”, divide-se o caipira em quatro categorias, segundo sua etnia, cada uma delas com suas peculiaridades: O caipira caboclo: descendente de índios catequizados pelos jesuítas. O caipira negro: descendente de escravos, na época de Cornélio Pires chamado de Caipira Preto: Foi imortalizado pelas figuras folclóricas da mãe-preta e do preto-velho que é homenageado por Tião Carreiro e Pardinho nas músicas "Preto inocente" e "Preto Velho". É, em geral, pobre. Sofre, até hoje, as consequências da escravidão; Cornélio Pires diz dele:

"É batuqueiro, sambador, e "bate" dez léguas a pé para cantar um desafio num fandango ou "chacuaiá" o corpo num baile da roça".


Ainda tem o caipira branco: descendente dos bandeirantes, uma nobreza decaída, orgulha-se de seu sobrenome bandeirante: os Pires, os Camargos, os Paes Lemes, os Prados, os Siqueiras, os Prados, entre outros.
E finalmente o caipira mulato, descendente de africanos com europeus. Raramente são proprietários. Cornélio Pires os tem como patriotas e altivos. Diz dele Cornélio Pires:


“o mais vigoroso, altivo, o mais independente e o mais patriota dos brasileiros”.

Com relação ao preconceito lingüístico que existe no país Marcos Bagno (2000), apresenta pensamentos que favorecem o entendimento de como qualquer expressividade preconceituosa é prejudicial a toda e qualquer sociedade. Segundo Bagno, o Brasil é um país com intensa diversidade linguística, porém existe o mito de que apenas a norma culta é correta, por isso é empregada em documentos oficiais e gramáticas que sistematizam a língua.



METODOLOGIA

O estudo hora abordado, desenvolveu-se a partir de uma avaliação do dialeto caipira representado pela novela Morde e Assopra, a qual nos oferece subsídios para compreender um fenômeno específico em profundidade, pois ela trabalha com descrições, comparações e interpretações de fatos linguísticos do falar caipira.
Foi utilizada a análise de algumas cenas, por tratarem de uma abordagem sociolinguística de cunho relevante, além de ajudar na compreensão e interpretação dos dados com clareza sobre o que está sendo pesquisado.
A observação das cenas foi de suma importância, pois elas podem nos permitir a verificação do uso do dialeto caipira encenados pelos personagens Abner e o Sargento Xavier. A técnica de observação teve seu papel colaborador, devido ao seu fornecimento linguístico, no qual possibilitou uma visão critica sobre os aspectos da fala.
Por conseguinte na novela Morde e Assopra, os personagens Abner e o Sargento Xavier são exemplos nítidos daqueles que falam uma variedade linguística distante das variedades urbanas.


Interação telenovela – receptor

Na dramaturgia da novela Morde e Assopra, os personagens Abner e Sargento Xavier, interpretados pelos atores Marcos Pasquim e Anderson Di Rizzi, respectivamente representam dois caipiras jecas que vem sendo comparado ao ícone do cinema Mazzaropi. Abner é um fazendeiro que cuida e luta pelas terras da família, na fictícia cidade de Preciosa, interior de São Paulo, que está ameaçada. Enquanto o Sargento interpreta um caipira visto como medroso e atrapalhado.
A exposição da figura do caipira na novela Morde e Assopra é considerada por muitos telespectadores de maneira distinta. Uns observam pelo lado apenas cômico, sem levar em consideração os aspectos lingüísticos e culturais que os envolvem. Outros, no entanto, assumem um posicionamento crítico, observando que há uma estigmatização da imagem desse falante do dialeto caipira e que esse falante é apresentado como um ser desprovido de conhecimento. Por outro lado, existe o olhar dos estudiosos em lingüística, que avaliam esse modo de se expressar como sendo um dialeto da língua portuguesa, representado de forma autêntica visto que representam a identidade cultural de um dado lugar. O falar caipira dentro das novelas é exibido com alguns objetivos que podem ser refletidos, neste caso deve-se considerar o dialeto caipira como mais uma variação da língua, e não apenas como um jeito engraçado de alguns falantes. Um exemplo de diferenciação e valorização da variação é quando se é trabalhado na mídia a utilização de palavras estrangeiras ou até mesmo o uso de outros idiomas, havendo uma supervalorização dessas expressões. Porque neste caso não há nenhuma indagação correlacionada ao uso coloquial da fala? Nada mais é do que a crença que descaracteriza as origens do país, cuja suspeita é de que o que é de fora é mais bonito.

Mídia e Preconceito

A forma como o dialeto caipira é evidenciado na novela Morde e Assopra, levanta a questão da variação linguística existente entre o homem do campo e o urbano de forma isolada. Esses ambientes são constituídos de figuras e símbolos de uma ideologia criada acima de uma visão urbana x rural. O que induz a uma ideia preconceituosa ao que se refere as diferenças entre estes falares. Baseados em um modelo de linguagem padrão, os falantes dessa língua distinguem-se daqueles que fazem uso do falar “caipirês”, por este falar ser caracterizado pela falta de rebuscamento e formalidade.
Buscando uma uniformidade da língua a mídia motiva ao senso comum, isso faz com que as pessoas criem um paradigma de comparação entre o que é corriqueira, neste caso a língua culta e o “diferenciado”, que seria o dialeto caipira. Assim desenvolvem-se alguns preceitos e prejulgamentos para com o ato da fala.




CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo de comunicação deve ocorrer dentro da limitações do seu falante. A lingüística traz a conscientização do respeito às diversas formas de expressão. A presença dos estereótipos na novela Morde e Assopra motiva à simplificação da realidade em paralelo a cenas de comédia dramatizada pelos personagens. O ser humano visa à sua representação para construir a sua identidade, a exclusão percebida nas novelas das chamadas “minorias”, que de minoria não têm nada, pode colaborar com a opressão pela manutenção e legitimação dos modelos propostos.
É importante que se desconstrua algumas concepções, que de certa forma é feita ao que se refere o dialeto caipira que contribui com sua pluralidade grandemente a nossa língua. Outro fator relevante a ressaltar é a estereotipia sobre outras convenções generalizantes para a composição de seus personagens, como exemplo tem-se a diferenciação das vestes e até mesmo poder aquisitivo que está inserido o personagem nas cenas (este sempre se diferenciando dos demais).
Não deve conferir à novela a posição de inferior ou superior a outros tipos de pessoas. Certamente a quebra de todos os estereótipos com relação a qualquer forma de expressividade denota uma mudança no modo de pensar de cada um, no entanto respeitar as variações deve ser um processo conciencional em exercício.

Referências Bibliográficas




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